
Sou da opinião que devemos deixar de lado os festejos triunfalistas e que as ações turísticas fiquem em segundo plano. Julgo ser um momento de destacar os valores vivenciados durante os 160 anos (1626-1768) de convívio entre os Guarani e Jesuítas.
A frase do saudoso bispo angelopolitano, Dom Estanislau Kreutz, nos lança uma luz sobre a epopeia missioneira: “Mais importante do que admirar e venerar as pedras e as ruínas que sobraram, é perguntar-nos o que esta experiência cristã comunitária de cento e sessenta anos tem a ensinar para a nossa sociedade”?
Portanto, vejamos alguns aspectos que podem iluminar o nosso caminho em busca da Terra Sem Males:
1) O primeiro ponto refere-se ao espírito coletivo do Guarani. O presidente da Organização das Cooperativas do Estado do Rio Grande do Sul (Ocergs) por vários anos, Vergílio Perius, na sua obra A Origem do Cooperativismo (2020) afirma: “A forma reducional Tupambaé protegia os indígenas em relação aos ataques provocados pelos bandeirantes e os caciques, bem logo entenderam o que seria necessário para proteção das famílias e houve, outrossim, produção de alimentos para as viúvas, deficientes físicos, crianças e inválidos.” E segue: “O mais importante que nesta pesquisa que ora divulgo é a confirmação que o berço ou origem do cooperativismo deu-se em terras da América Latina, nas reduções Guarani”. Nessa convivência entre Guarani e Jesuítas imperava o seguinte princípio: a cada um conforme suas necessidades; e de cada um conforme suas capacidades.
2) Ao falar da vivência do dia a dia nas reduções, a professora Dra. Claudete Boff (2018) assim se expressa: “O que me encanta nesta história é o tipo de sociedade que foi desenvolvida ali. Há posições a favor e contrárias à experiência. Quando se houve dizer que foi um massacre, que impuseram uma cultura diferente aos indígenas, acho que houve, sim, imposição. Por outro lado, é preciso situar-se na época, no pensamento da época. Os indígenas não tinham muita escolha entre sua vida nas selvas ou nas Reduções uma vez que sofriam a caça dos encomendeiros que os usavam como mão-de-obra escrava em suas lavouras. Dentro da Redução, ele estava protegido de servir como escravo numa fazenda”.
Ela prossegue destacando: “Em muitas coisas os Jesuítas fecharam os olhos para cultura ancestral, mas em outras aderiram à cultura indígena”. E conclui: “O que eu acho interessante ressaltar é como esta mescla e entrosamento de culturas foi capaz de construir verdadeiros centros econômicos, templos maravilhosos, casas de pedra. Enfim, quando se visita estes sítios arqueológicos e se vê estas igrejas, os museus e as imagens, se fica extasiado”.
Sintetizando, podemos dizer que houve e ainda há polêmicas históricas sobre a experiência missioneira, mas do ponto de vista arquitetônico e cultural existe unanimidade. Termino perguntando: o que, depois de 400 anos desta experiência missioneira, a sociedade como um todo realizou de mais efetivo em relação às populações originárias?
*Irmão Celso João Schneider, SJ faz parte da Companhia de Jesus (jesuítas), é guardião auxiliar do Santuário dos Santos Mártires do Caaró (RS) e embaixador dos 400 anos das Missões.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.



