A Rede Jesuíta de Justiça Socioambiental (RJSA) realizou na manhã da última sexta-feira, 19 de junho, o primeiro dos Seminários de Formação em Rede, ciclo de três encontros on-line dedicado a aspectos centrais do apostolado social da Companhia de Jesus. O tema de abertura, O apostolado social da Companhia de Jesus e a missão dos Centros Sociais, teve a condução do Pe. Agnaldo Júnior, SJ, delegado socioambiental da Conferência de Provinciais Jesuítas da América Latina e do Caribe (Cpal), e Iraneidson Santos Costa, professor de História na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e diretor de Publicação e Cadernos do Centro de Estudos e Ação Social (Ceas), com moderação de Nélia Nascimento, secretária executiva do Ceas.
Na abertura, Pe. Jean Fábio Santana, SJ, secretário para a Justiça Socioambiental da Província dos Jesuítas do Brasil, situou o seminário dentro do movimento de reorganização que a rede vive nos últimos anos. Desde 2023, a RJSA atravessa um tempo de reestruturação e ressignificação, que tem apontado oportunidades de consolidar caminhos e purificar o modo de proceder para fazer o maior bem a partir do apostolado da justiça socioambiental. Evocando Santo Inácio de Loyola e Dom Hélder Câmara, o secretário lembrou que o sistema econômico ajusta as relações sociais de modo devorador, gerando privilégio para poucos à custa do sofrimento de muitos, e que enfrentar essa realidade tem sido o caminho da rede.
A trajetória histórica do apostolado social
Iraneidson Santos Costa conduziu a primeira intervenção com uma leitura histórica do apostolado social jesuíta, organizada em torno de dois grandes paradigmas. O primeiro, o do catolicismo social, marcado pela Doutrina Social da Igreja e tendo como referência a encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, em 1891. O segundo, a transição para o Cristianismo da Libertação em meados do século XX, sob influência do Concílio Vaticano II e dos movimentos revolucionários latino-americanos.
Nessa trajetória, identificou diferentes etapas no apostolado social, dos primeiros centros europeus, no início do século XX, à expansão latino-americana entre as décadas de 1950 e 1970. Lembrou ainda que a assessoria desses centros deu origem a movimentos como a Comissão Pastoral da Terra e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e apontou a Congregação Geral 32, de 1974 e 1975, com os Decretos 2 e 4, como o marco que integrou de forma inseparável o serviço da fé e a promoção da justiça.
O professor sinalizou que a Companhia de Jesus vive hoje uma nova transição de paradigma, com sinais como o impulso dado à Doutrina Social no pontificado do Papa Francisco e a integração da ecologia integral e do cuidado da Casa Comum à missão. Trata-se, concluiu, de um processo aberto, que pede atenção histórica e prática, com protagonismo dos movimentos populares e das comunidades.
Identidade e missão dos Centros Sociais hoje
Pe. Agnaldo Júnior, SJ, complementou a reflexão com ênfase na prática, organizando a identidade e a missão dos Centros Sociais em torno de três núcleos: a promoção da justiça, intrínseca à fé e recuperando o Decreto 4 da CG 32; a transformação estrutural, que articula investigação, formação e incidência; e o discernimento contínuo, que integra a leitura da realidade à oração inaciana.
Entre as prioridades metodológicas, destacou a pesquisa em parceria com universidades, a inserção próxima aos povos empobrecidos, a incidência política por mudanças sistêmicas, a escuta das vozes locais e a formação espiritual e técnica permanente de jesuítas e equipes. Apresentou também as iniciativas globais coordenadas pela Companhia nas áreas de ecologia integral, direito à educação, com a Federação Internacional Fé e Alegria como articuladora importante, migração forçada, acompanhada pelo Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR), e justiça na mineração, em defesa dos territórios e dos povos indígenas por meio da Frente Apostólica Indigenista.
Como recomendações, o delegado da Cpal falou em coerência apostólica e sentido de pertença. Apontou ainda a construção de redes internas e externas, a constituição de um novo sujeito apostólico que articule jesuítas e leigos, e a avaliação de impacto a partir da escuta das comunidades acompanhadas. Trabalho que a RJSA vem realizando ao articular Fé e Alegria, SJMR, a Frente Apostólica Indigenista e centros sociais como uma só rede a serviço da justiça socioambiental.
Próximos encontros
O ciclo continua em 26 de junho, às 10h, com o tema das ações socioassistenciais no contexto das políticas públicas brasileiras. O encontro terá Leandro Nardi como convidado, com moderação de Tatiane Sant’Ana. A série se encerra em 03 de julho com a pergunta sobre o que é, afinal, uma rede jesuíta.
A promoção da justiça socioambiental é exigência da fé. Por isso, os seminários são abertos a jesuítas, colaboradores e colaboradoras, leigos e leigas, religiosos e religiosas parceiros e a todos os que se sentirem chamados a participar.
As inscrições seguem abertas em https://forms.office.com/r/Stg0gJGk8N



