
Nesta crônica, digitada em plena batalha eleitoreira do Brasil, estou me comunicando com você por meio do aspecto religioso-eclesial que, a meu ver, está surpreendendo muita gente de todos os continentes. O título acima já está a dizer tudo. Contudo, inicialmente devo explicar esta minha preferência. Não escrevo a você para tirá-lo de sua preocupação cívica, em prol de um país que desejamos ver se tornar uma nação democraticamente mais civilizada. Procure ainda votar bem, segundo sua consciência cristã, neste segundo turno eleitoral.
Colocada essa premissa, limito-me a ordenar o meu texto, na perspectiva mais positiva de se antever um sinal de esperança no cenário global, ou seja, acreditar que o bem vai superar o mal. É o que parece estar acontecendo nos primeiros anos do Pontificado de Leão XIV. Entre tantos aspectos positivos que se percebe de sua rica personalidade, nas linhas que seguem, fixo-me naquilo que me parece lhe ser peculiar: sua clara e inequívoca consciência de se apresentar como missionário da Paz e da Unidade num universo tão dilacerado por guerras intermináveis. Entende-se, então, sua necessidade de dar uma boa continuidade às viagens apostólicas dos últimos Papas.
É evidente que o atual Papa, além dos muitos predicados de grande liderança religiosa mundial que lhe são atribuídos e reconhecidos, está mais do que convencido de que há uma necessidade imprescindível, no ambiente global, de que haja uma maior aproximação entre as mais variadas e diferentes raízes culturais. Daí a continuidade das suas últimas viagens apostólicas, num viés talvez mais ligado a um melhor entendimento da Doutrina Social que a Igreja, desde Leão XIII, vem propondo aos homens e mulheres de boa vontade.
Sintetizando, então, toda a sua grande atividade religioso-política até o momento, tratarei, a seguir, de como percebi a repercussão de sua última viagem à França, na sequência daquela outra viagem feita à Espanha. O que há de comum nas duas viagens é a sua visão ampla do catolicismo pós-moderno, que pode e deve anunciar a Verdade lúcida da Unidade e da Paz, que tem sua origem na boa notícia de Jesus Cristo – confira Jo 14,27.
Procurarei ser breve e objetivo no meu parecer sobre esta ‘peregrinação pascal’, por meio de duas leituras e reflexões pessoais que se completam e que me ajudaram a me posicionar. Uma primeira leitura foi a de um artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, de 29 de setembro último, que trazia como manchete: “Ida do Papa à França mostra mundo de pernas para o ar, mas em desejo de reconciliação”. Minha impressão foi que a análise que o autor fazia da viagem estava certa, no sentido de que Leão XIV conquistou não só os franceses, de maneira parecida como conseguiu com os espanhóis, mas também boa parte da Europa ocidental, todos necessitados de maior compreensão do fenômeno negacionista religioso que se implementou globalmente, após a revolução tecnológica do últimos séculos.
No mesmo dia, lí, nas notícias do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), uma entrevista muito interessante que o cardeal Jean-Marc Aveline, presidente dos bispos da França, dera sobre a mesma viagem. A última resposta que o arcebispo deu ao entrevistador sobre a oportunidade da viagem, me surpreendeu: “Penso que a França precisava disso. A Igreja da França também recebeu muito durante estes dias. Muitas sementes foram lançadas. Cabe a nós refletir bem, para regá-las como convém…” A resposta desafia-nos!
Posso, então, muito simples e sinteticamente, dizer que essas duas vozes acima confirmaram o que eu já vinha sentindo, após ter acompanhado, passo a passo, a programação televisionada pela Vatican News, da intensa caminhada do Papa por Paris, Lourdes e Metz . E mais: reafirmo para você, amigo(a), minha convicção de que, em um mundo tão fragmentado por posições religiosas tão antagônicas e opostas, esta(s) viagem(ns) afirma(m) que a Providência divina continua lançando as sementes do Bem e da Verdade a uma humanidade ferida, espiritual e materialmente falando. No entanto, fica para nós, cristãos batizados no sangue de Jesus Cristo, a tarefa missionária de cultivar e anunciar nossa fé, esperança e caridade para todas as pessoas desnorteadas que ainda procuram a Unidade e a Paz – confira Ef 4,1-3.
Faço questão de finalizar este meu testemunho cristão com a palavra autorizada do próprio Papa, na sua versão bem pessoal. Na última Audiência Geral das quartas-feiras, em 30 de setembro passado, pude vê-lo e ouví-lo dizendo:
“Tal sinergia (falava de um renascer comum entre Igreja e sociedade civil) em prol do bem comum deveria ser o padrão de atuação para as instituições e forças políticas e sociais, e para todos aqueles que detêm responsabilidades cívicas e econômicas. É esta a mensagem que desejei transmitir às autoridades francesas, bem como aos membros da UNESCO, com sede em Paris, ao destacar o critério fundamental sobre o qual tal colaboração deve assentar: a dignidade da pessoa humana.”
Que nos deixemos atrair por este novo sinal que apareceu ultimamente no horizonte de nossa fé cristã, na palavra fidedigna e profética do Apocalipse de João Evangelista: “Em Jesus, enviei meu Anjo para vos atestar estas coisas a respeito das Igrejas, Eu sou o rebento da estirpe de Davi, a brilhante estrela da manhã” – Apc 22,16.
Autor: Pe. Paulo Lisbôa, SJ
Jesuíta



