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Artigo | Afonso Rodrigues, o santo irmão das duas mil páginas

  • Postado em: 29 de outubro de 2026

Ir. Epifanio Barbosa Lima,SJ1

A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. 

Le Goff, 2003.  p. 471. 

Quem és, Afonso? 

Ao menos uma vez ao ano, ali pelo décimo mês, se costuma evocar fortemente a figura de um personagem mais que conhecido no ad intra do Corpo da Companhia de Jesus.  Trata-se de Santo Afonso Rodrigues, padroeiro dos Jesuítas Irmãos, celebrado pela Igreja no 31 de outubro. 

Uma primeira iconografia que ordinariamente surge na imaginação ao lembrar de Afonso apresenta alguém idoso, devocional, frágil, piedosamente intimista… também certos símbolos imediatamente se destacam junto à representação do Santo: o rosário, chaves na mão, portas sendo abertas… e ecoa uma única frase do benemérito porteiro:  “Já vou, Senhor”.  Até aqui tudo como convém, tudo como construído nos últimos séculos para dar rosto e à imagem e construção de um perfil do Jesuíta Irmão em seu Patrono.

Porém, com uma pedagogia da pergunta, outro Afonso é evocado com a sua história sendo lida à contrapelo. Afonso estudante em colégio jesuíta? Afonso, órfão e arrimo da família? Afonso comerciante em Segóvia?  Afonso esposo e pai? Afonso viúvo? Afonso que viu seus filhos sendo levados pelas febres? Afonso que retorna ao seu primeiro amor e volta-se à Companhia de Jesus? Afonso que busca a Deus em diálogo e discernimento com São Francisco Borja? Quem és, Afonso? És todos esses… e mais! 

Construindo memórias do esquecimento.

Para uma memória desimpedida, busque-se o outro Afonso. O Afonso influenciador das juventudes… o Afonso místico espanhol medieval da mesma escola espiritual pela qual passou Teresa D’Ávila, João da Cruz, Inácio de Loyola… o Afonso escritor de Tratados Espirituais e Cartas Vocacionais… o Afonso das duas mil páginas. 

No medievo europeu, a Ars Scribendi era coisa para poucos… contudo, Afonso escrevia. O letramento manuscrito era algo muito raro e erudito… contudo, Afonso escrevia. Os instrumentos de grafia – tinta, papel-papiro, pena e pluma – eram reservados a certas classes ilustradas… contudo, Afonso escrevia.  E o que escrevia Afonso, o Santo das duas mil páginas? O que lhe mandavam!

Da parte da Companhia de Jesus, recebeu a ordem de começar a registrar no papel a própria consciência e, daí, surge o que ficou conhecida como sua Autobiografia. Um exercício que se inicia em 1606, momento que fica patente para todos que aquelas palavras e pensamentos, aquele modo de expressar o indizível que era natural em Santo Afonso Rodrigues não poderia se perder na oralidade ritual de uma conversa isolada e pontual com seus superiores; tal registro vai se estender até o ano de sua morte, em 1617. 

E, passados dois anos – 1606 e 1607 –  dessas escritas demandadas a Afonso, tal era o desejo de beberem da fonte que ele transbordava em suas palavras que ficou ordenando ao Santo que não mais escreveria a sua conta de consciência apenas uma vez ao ano, como previa a Norma, mas que a fizesse a cada seis meses; e assim o foi: a partir de 1608, ficaram preservados os escritos autorais tanto que Afonso compunha no mês de janeiro quanto no mês de junho. 

Da parte de Deus, Afonso passou a escrever o que em seu espírito lhe  ocorria e dessa experiência mística, brotam três tomos que foram compilados como sua Obra Completa: o I Tomo está dedicado a ‘Práticas e Documentos Espirituais’; o Tomo II com ‘Opúsculos Espirituais’ e cinco Tratados do ‘Caminho Espiritual para chegar à perfeição cristã’; o Tomo III com mais nove partes complementares ao Tomo anterior, totalizando catorze Tratados. É esse o Afonso que aparece quando se avança para águas mais profundas e que ainda está por se conhecer no Brasil.

Em tempos de apagamentos de rastros, de distorção entre opinião e fato, do antropoceno e suas múltiplas crises, de relatos impedidos ou distorcidos à força de falsas notícias,  há que viabilizar e visibilizar as memórias que estão em vias de esquecimento-apagamento. Por isso, Santo Afonso das duas mil páginas, rogai por nós.  

1 Escritor. Acompanhante Espiritual. Oferta Exercícios Inacianos. Membro do Conselho Editorial da Revista Itaici. Pedagogo. Professor e Pesquisador no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) Unisinos. Especialista em Espiritualidade Inaciana, Mestre em Gestão Educacional, Doutor em Educação e Pós Doc com ênfase em Identidade Institucional.

Referência

LE GOFF, Jacques. Memória. In: História e memória. Campinas, SP: Ed. Da UNICAMP, 2003.
LIMA, Ir. Marcos Epifanio B. Cartas e Máximas Espirituais de Santo Afonso Rodrigues.
Organização, Tradução e comentários. São Paulo: Ed. Loyola, 2021.
RODRIGUEZ, Afonso. Obras Completas. Tomos I, II e III. Imprenta de Fco Rosal:Hospital, 1886.
RODRIGUEZ, Afonso. Autobiografia. Barcelona: Ed. Borgiana, 1956.
SAITO, Kogei. O capital no Antropoceno. São Paulo: Boitempo, 2024.

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