
Pe. Adriano Luís Hahn, SJ
O tempo da quaresma nos convida a um processo de conversão pessoal, apelando para a revisão de nossas atitudes individuais, intersubjetivas, e nosso modo de ser e de estar na comunidade e até mesmo na sociedade. O individual e o comunitário estão em relação dialética. Porém, a necessidade de conversão institucional não pode ser desprezada se quisermos superar uma perspectiva demasiadamente individualista.
A mudança do “coração” – que é metáfora de nossa interioridade, nossas emoções, vontade e comportamento ético – é importante e necessária. Porém, propomos para esta quaresma uma postura mais comunitária, em sintonia com o evangelho de Lucas que é “uma proposta de libertação e salvação universal” (MOREIRA, 2013).
O Papa Francisco, durante o Covid-19, em 27 de março de 2020, na Praça de São Pedro toda vazia, disse que “ninguém se salva sozinho”, enfatizando a importância do trabalho coletivo e solidário de enfrentar os desafios que, naquele contexto, referia-se ao esforço gigantesco de médicos e trabalhadores perante a pandemia (na verdade, melhor classificada de sindemia!).
Daí a importância de pensar ações e compromissos coletivos, apoiando projetos concretos que atendem aos mais necessitados, sejam eles pessoas em situação de rua – atendendo ao chamado da Campanha da Fraternidade da CNBB de 2026: “Fraternidade e Moradia” – sejam outras situações segundo a realidade de cada contexto.
A pergunta central é: o que podemos fazer de concreto enquanto instituição – seja ela social, eclesial, educativa etc – para criar um mundo mais humano, solidário e fraterno? Penso, que não é necessário “reinventar a roda”, mas apoiar os projetos sociais já existentes e fortalecer políticas públicas como, por exemplo, o Sistema Único de Saúde (SUS), garantindo que o direito ao acesso gratuito e universal continue, num país em que a maioria da população não possui renda suficiente para pagar médico privado. Aliás, a saúde como um direito de acesso a todas as pessoas está em sintonia com a ideia da salvação universal como dom gratuito oferecido à humanidade, presente no Evangelho de Lucas.
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Texto-base da Campanha da Fraternidade 2026: Fraternidade e Moradia. Brasília, DF: Edições CNBB, 2025.
FRANCISCO, Papa. Momento extraordinário de oração em tempos de epidemia. Praça de São Pedro, Vaticano, 27 mar. 2020. Disponível em: Vatican.va. Acesso em: 8 jan. 2026.
MOREIRA, Gilvander Luís. Evangelho de Lucas: teologia da história. Instituto Humanitas Unisinos – IHU, 2013. Disponível em: www.ihu.unisinos.br. Acesso em: 23 dez. 2025.



