
Entre os dias 14 e 16 de maio, Porto Alegre e São Leopoldo (RS) acolheram o Encontro Sul Brasil da Articulação Afro Brasil SJ, reunião que vem criando espaço, a cada edição, para debater raça, território e espiritualidade a partir de uma perspectiva inaciana.
Essa edição teve como tema central Fraternidade e Moradia e como objetivo mapear e articular presenças, compartilhar iniciativas e incentivar uma prática mais articulada e em rede entre as comunidades e instituições participantes.
A programação da manhã da sexta-feira (15), foi marcada pela abertura do Pe. Sérgio Eduardo Mariucci, SJ, reitor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), pela fala de acolhida do Pe. Jean Fábio Santana, SJ, secretário para a Justiça Socioambiental da Companhia de Jesus no Brasil, e pelo seminário Moradia, território, resistência: comunidades negras e indígenas e o direito à cidade, que dialoga com a Campanha da Fraternidade 2026 e promoveu o debate sobre o acesso à moradia digna e ao território na região Sul do Brasil.
O seminário foi dividido em dois painéis: o Painel 1, dedicado à análise da conjuntura nacional, com Pe. Clóvis Cabral, SJ, como painelista e mediação de Denilson Flores, e o Painel 2, dedicado à análise da conjuntura regional, com a Profa. Maria Aparecida Marques da Rocha, do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) da Unisinos, e o Prof. Walmir da Silva Pereira, pesquisador de direitos indígenas. A mediação do Painel 2 foi de Alexandre Machado da Silva.
Presença negra nas cidades sulistas
A professora Maria Aparecida dedicou sua fala à presença negra e quilombola no Rio Grande do Sul, desfazendo uma narrativa que ainda persiste no imaginário regional: a de que o Sul do Brasil é majoritariamente europeu. A população negra chegou ao estado desde o século XVIII, por rotas que passavam pelo Rio de Janeiro, pelo Uruguai e pela Argentina, com Buenos Aires e Montevidéu funcionando como centros de circulação africana na América do Sul. Trabalharam nas charqueadas de Pelotas e Rio Grande, na pecuária, na fronteira, no trabalho doméstico. Vieram, em sua maioria, da África Centro-ocidental e da África Ocidental. E ficaram, mesmo quando a história oficial preferiu não vê-los.
Os quilombos que se formaram ao longo desse processo não foram apenas refúgios de fuga. Também surgiram por doação, por ocupação continuada, por decisão coletiva de permanecer. São espaços de preservação da ancestralidade, de cultivo da terra, de reprodução da vida comunitária. O Rio Grande do Sul tem hoje cerca de 130 comunidades quilombolas distribuídas em mais de 68 municípios. Apenas quatro possuem titulação definitiva, total ou parcial: Casca, Mostardas, Família Silva em Porto Alegre e Chácara das Rosas em Canoas. Mais de 116 processos de regularização fundiária aguardam na fila.
A professora trouxe também o caso do Quilombo Kédi, no bairro Boa Vista, em Porto Alegre (RS), como exemplo concreto do que significa disputar território quando o mercado imobiliário avança. A Justiça Federal e a Defensoria Pública precisaram intervir para interromper demolições e garantir a permanência das famílias.
Reexistência indígena no Sul
O professor Walmir abriu sua fala registrando algo que, para ele, merecia ser celebrado: a universidade vivendo um momento histórico com a entrada de novos estudantes indígenas vindos diretamente de aldeias. Para além do dado, estava a afirmação de que esse acesso gera retorno concreto às comunidades, com formação de advogados, enfermeiros, pedagogos, professores e agentes de saúde.
Mas o centro da análise era outro. Para os povos indígenas, a questão do direito à cidade passa por reconhecer que as cidades brasileiras foram construídas sobre territórios que já tinham donos. A presença indígena no espaço urbano, portanto, tem tudo a ver com reterritorialização, com o exercício de um direito que antecede qualquer legislação moderna. O Rio Grande do Sul está entre os estados com mais retomadas indígenas do país. Porto Alegre concentra o maior número de aldeias entre as capitais brasileiras.
O estado que o professor descreveu é de permanente tensão. Os povos Charrua, Guarani, Xokleng e Kaingang enfrentam conflitos fundiários, arrendamentos ilegais, violência física e discursiva, ausência de plano habitacional específico. Um megaprojeto da CMPC na região da Barra do Ribeiro foi mencionado como ameaça concreta aos territórios guaranis e ao bioma Pampa. O avanço do agronegócio, o desmatamento e a substituição de vegetação nativa por monoculturas intensificam os riscos.
Ainda assim, o professor falou em reexistência, palavra que carrega mais do que resistência. Resistir é aguentar. Reexistir é continuar sendo.
A universidade além de seus muros
No período de perguntas, a discussão se abriu para o papel da universidade diante dessas realidades. A conclusão foi direta: a universidade precisa ir além de falar sobre os territórios. Precisa estar nos territórios, construir conhecimento com as comunidades, ampliar as ações afirmativas e retomar uma tradição histórica de compromisso social que não pode ser apenas discurso.
O encaminhamento do painel, tanto quanto qualquer resolução formal, foi o próprio reconhecimento de que o Sul do Brasil tem uma dívida histórica com a população negra e com os povos indígenas que nele vivem, e de que a academia, a Igreja e os movimentos sociais precisam construir juntos os caminhos de reparação.
A equipe que tornou o encontro possível
O Encontro Sul Brasil 2026 foi realizado pela Articulação Afro Brasil SJ e Rede Jesuíta de Justiça Socioambiental (RJSA), com o apoio do Colégio Anchieta de Porto Alegre, da Unisinos e do Neabi Unisinos.
O encontro prosseguiu até sábado, 16 de maio. À tarde da sexta-feira, o grupo participou do Percurso Negro em Porto Alegre, conduzido pelo historiador e professor do Colégio Anchieta, Jovani Scherer. O percurso passou pela Praça do Tambor, pela Igreja Nossa Senhora das Dores, pela obra Lanceiros Negros no Tribunal de Contas, pela Pegada Africana na Praça da Alfândega, pela Igreja Nossa Senhora do Rosário e pelo Bará no Mercado Público de Porto Alegre. No sábado, a programação se voltou para os trabalhos internos da articulação, com sessões dedicadas às articulações regional e nacional, encaminhamentos finais e celebração.



