
Ir. Consolação de Matos, FI (Ir. Consola)
A Igreja nos ensina que, com a Ressurreição de Jesus, todo o universo é glorificado. A Sagrada Escritura denomina a esta transformação de “novos céus e nova terra”. No final dos tempos, “Deus habitará” neste “novo universo” e tudo o que é sofrimento não mais existirá (Ap 21.1-5). Não só o ser humano, mas todo o cosmo será transformado, participando da glória de Jesus Cristo ressuscitado. Deus será fonte inesgotável de paz, felicidade e mútua comunhão. (CIC 1042-1050)
Como passar do testemunho histórico a uma abordagem da ressurreição que seja compreendida, visível, palpável?
Me parece enriquecedor pinçar dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola duas inspirações que se fundem com a verdade da Ressurreição de Jesus.
Na iluminação do Rio Cardoner, quando ele vê “novas todas as coisas”, S. Inácio experimenta esse outro mundo, o “céu”, tão desejado por cada criatura. Uma inspiração que ilumina a Ressurreição de Jesus, e a nossa, é o “Princípio e Fundamento”.
1. O Princípio e Fundamento
Santo Inácio experimenta que “o ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus, e assim salvar a sua alma. Todas as outras coisas são meios para esse fim”. (EE. 23)
À luz da Ressurreição, esses dizeres de Inácio ganham uma nova força:
– Cristo ressuscitado revela que o fim último não é o fracasso, nem a cruz isolada, mas a vida plena em Deus, louvando, reverenciando e servindo num vínculo de amor infinito. Isso já é viver n’Ele a eternidade no aqui e agora;
– A Ressurreição confirma que o sentido da criação e da história é a vida vitoriosa — e que tudo deve ser ordenado para essa verdadeira Vida.
Então, a Ressurreição é a confirmação divina do Princípio e Fundamento:
Fomos criados para a Vida, porque a Vida venceu! Louvar, Reverenciar e Servir é reconhecer a majestade e a glória do Pai-Criador-Vitorioso.
2. A Contemplação para alcançar o Amor
Santo Inácio deseja que essa vida nova em Deus se eternize e que, a partir de agora, como ser amado e perdoado, precisa visibilizar a cumplicidade com o Amante das semanas anteriores. “O amor deve consistir mais em obras do que em palavras”(EE.230)
Conforme relata o Novo Testamento, Jesus vive com o coração do Pai. Em toda a existência terrena de Jesus, o Pai-Amante, que desde a eternidade viveu a feliz comunhão com o Filho-Amado, quer e deseja que esse amor dure eternamente. O Filho não pode permanecer morto, esquecido. Então, por amor ao Filho, O ressuscita no terceiro dia, após a morte na cruz. Fidelidade mútua! “O amor é o desejo de eternidade do ser amado.” (S. Tomás de Aquino)
Comunhão mútua entre Amante e Amado olhando na mesma direção: são cúmplices desde a decisão da encarnação até à morte na cruz, amor levado até o extremo. É um amor feito não só de Palavras -“Faça-se!”, “Eis-me aqui, envia-me!” -, mas, principalmente, amor que se concretiza na obra da Ressurreição, que “Vive!”, estreitando a cumplicidade no projeto de “Redenção do gênero humano”.
Inácio contempla Jesus e o Pai doando-se um pelo outro – “o amor consiste na comunhão mútua…” (EE 231) –, abraçados numa mesma causa, e deseja se assemelhar até esse grau de amor. Assim, a bela contemplação para alcançar o amor é uma interpretação do que é a ressurreição.
Vamos sendo esculpidos pelo amor e graça do Criador. Qual tem sido minha resposta? Assumo a causa d’Ele, com Ele e n’Ele?



