
Representantes de obras, parceiros, amigas e amigos se reuniram em Brasília para celebrar os dez anos do Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida (Olma), durante o 2º Encontro Nacional da Rede Jesuíta de Justiça Socioambiental (RJSA). Uma década de missão que reuniu memória, gratidão e o testemunho de uma obra que sempre trabalhou com os outros, sustentada pelo tripé que a definiu desde o início: produção de conhecimento, incidência política e articulação em rede.
A celebração começou com uma Missa de Ação de Graças presidida pelo Pe. Jean Fábio Santana, SJ, secretário para a Justiça Socioambiental da Província do Brasil, e concelebrada por padres presentes, incluindo os jesuítas do Centro Cultural de Brasília (CCB) que residem na cidade. Em seguida, uma cerimônia especial no auditório, conduzida pelo secretário executivo do Olma, Luiz Felipe Lacerda, ao lado do Pe. Jean Fábio, reuniu convidados que ajudaram a construir a história do observatório.
O reconhecimento de uma trajetória
Em sua fala, o Pe. Jean Fábio destacou a relevância do trabalho do secretário executivo do Olma, Luiz Felipe. Agradeceu por tudo o que, em suas palavras, Deus concedeu por meio do observatório. Durante a cerimônia, foi lançado um catálogo que reúne mais de trinta produções realizadas ao longo dos dez anos, já disponível para download.
Luiz Felipe recordou que o Olma nasceu em 27 de agosto de 2016, data que marca a páscoa de Dom Luciano Mendes de Almeida (1930-2006), o bispo jesuíta que dá nome ao observatório, com a convicção clara de ser uma obra de incidência política fundada na educação popular. O observatório surgiu no contexto de criação da Província do Brasil e tem como horizonte a encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, que oferece muitas das referências que orientam seu trabalho.

Ele lembrou o Pe. José Ivo Follmann, SJ, secretário para a Justiça Socioambiental à época da criação do observatório, e destacou a colaboração do Pe. Thierry Linard de Guertechin, SJ, jesuíta de origem belga que atuou em Brasília e faleceu em janeiro de 2022. No Olma, o Pe. Thierry coordenou o projeto Diálogos em Construção, dedicado à reflexão sobre temas sociais, políticos e ambientais. Luiz Felipe destacou ainda que o Olma faz parte de uma família de organizações, ao lado da Cáritas Brasileira, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), do Fórum de Mudanças Climática e Justiça Socioambiental e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), e que o observatório sempre trabalhou em rede, fazendo com os outros, e não sozinho.

Uma obra construída a muitas mãos
O primeiro trabalho do observatório foi construir uma rede, a partir de um conselho nacional que se reuniu dezesseis vezes ao longo de oito anos, com a participação de representantes das obras da justiça socioambiental e demais redes do Corpo Apostólico. Em dez anos, o Olma alcançou diretamente cerca de 32 mil pessoas. Entre 2016 e 2018, dedicou-se a seminários de educação popular nas antigas Plataformas Apostólicas, percorrendo todas as regiões do Brasil. Em 2021, com o aparecimento do termo migrações climáticas nos documentos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), uniu forças com o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR), a Federação Internacional Fé e Alegria, a Conferência de Provinciais da América Latina e Caribe (CPAL), a Rede Jesuíta com Migrantes (RJM) e a Ecojesuit para a realização de três seminários globais, nacionais e regionais sobre esse tema, nas redes sociais.
Desde 2021, o Olma investe na articulação com universidades, por meio da Associação de Universidades Confiadas à Companhia de Jesus na América Latina (AUSJAL), onde coordena um Grupo de Trabalho sobre Meio Ambiente e Corrupção na América Latina, ao lado de oito instituições de ensino superior jesuítas e cinco centros sociais vinculados à CPAL, entre eles o Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (Sares). Além disso, desde 2020, com demais organizações e pastorais sociais, apoia na coordenação da Articulação Brasileira pelos Direitos da Natureza, hoje sua principal frente, voltada ao projeto de lei pelos Direitos da Natureza.
Vozes que teceram a história
A cerimônia foi marcada pelo testemunho de parceiros que caminharam com o observatório. Ivo Poletto, do Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental, afirmou que a parceria do Fórum com o Olma é permanente, sempre ao lado dos pobres e da terra. Ele contou que, ao procurar obras para apoiar a pauta dos Direitos da Natureza, a primeira resposta positiva veio do Olma, e que essa é hoje, em 2026, uma frente conduzida em conjunto, aprendendo a interpretar de forma criativa o grito da terra e dos pobres.
A Ir. Irene Lopes, da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), subiu ao palco ao lado de Luiz Felipe e lembrou que os dez anos do Olma são fruto de um longo processo. Recordou a participação do Pe. Thierry, assim como as cinco edições da Semana de Estudos Amazônicos, realizadas em colaboração com a Repam e as universidades jesuítas, e afirmou que ninguém trabalha sozinho: avançar para águas mais profundas só é possível com o trabalho em rede.
Luiz Felipe relembrou o podcast O céu de Dom Luciano, cujos episódios seguem disponíveis na internet, e convidou ao palco Luiz Beltrão, da comunidade do CCB, pesquisador voluntário do Olma, especialista em Direito Ambiental e consultor legislativo de meio ambiente do Senado Federal. Músico e artista, Luiz Beltrão citou a Carta a Diogneto: assim como a alma está no corpo, assim os cristãos estão no mundo. A imagem, disse, resume o Olma: sal e fermento, presente com capilaridade, articulando a partir das pessoas em situação de vulnerabilidade e dinamizando processos, chamado a estar nas fronteiras.
Convidada por Luiz Felipe, Suelem Velasco, coordenadora de projetos do Centro Alternativo de Cultura (CAC), obra que integra a RJSA em Belém, falou sobre a importância do Olma na articulação do CAC dentro da Rede. Agradecida, recordou uma frase de Manoel de Barros, segundo a qual a importância de uma coisa se mede pelo encantamento que ela causa, e disse que o CAC é grato ao observatório por ter reconhecido a grandeza daquele espaço e o integrado à Rede.
Jonas Jorge, do Centro de Promoção de Agentes de Transformação (Cepat), obra da Rede em Curitiba, lembrou que o Pe. José Ivo Follmann sempre foi visionário e formou dupla com Luiz Felipe, desbravando muitos caminhos. Desde o nascimento do Olma, afirmou, a expressão justiça socioambiental nunca mais deixou a rede, unindo justiça social e ambiental. Recordou a pergunta que marcava Dom Luciano, em que posso servir?, e disse que o Olma sempre atendeu a quem bateu à sua porta. Agradeceu de modo especial a Luiz Felipe pelo trabalho à frente do observatório, que respondeu a tantas solicitações das obras muito antes de a articulação se constituir formalmente como Rede Jesuíta de Justiça Socioambiental. Deus é bom e nos conduz por caminhos insondáveis, concluiu.
Lançamento do catálogo do Olma
Ao fim, diante de todos os presentes, Luiz Felipe apresentou o catálogo digital das produções do observatório. Organizado em sete eixos, entre eles Cartilhas Pedagógicas, Saberes Tradicionais, Ecologia Integral e Direitos da Natureza, o material reúne uma década de conhecimento em livros, artigos, cadernos formativos, boletins e documentos técnicos, com acesso livre e gratuito. O catálogo está disponível para download. A noite terminou em confraternização, com música e alegria, entre boas memórias e gratidão pela caminhada.
A história do Olma confirma, à sua maneira, aquilo que move toda a RJSA: a missão é maior quando as obras e frentes apostólicas caminham juntas.
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