
Em 12 de outubro de 2026 completam-se 50 anos da morte do padre João Bosco Penido Burnier, SJ. O jesuíta foi assassinado ao defender duas lavradoras que estavam sendo torturadas na delegacia de Ribeirão Cascalheiras, município mato-grossense, então chamado Ribeirão Bonito. Seu nome tem atravessado o tempo como símbolo da defesa dos direitos humanos em um dos períodos mais sombrios da história brasileira.
Assassinado em 1976, em plena ditadura militar, Pe. Burnier morreu em consequência direta da atuação pastoral marcada pela coragem, pela proximidade com os mais vulneráveis e pela denúncia das violências praticadas contra indígenas, posseiros e trabalhadores rurais no avanço da fronteira agrícola no Centro-Oeste do país.
Uma vocação moldada pela missão
Nascido em Juiz de Fora (MG), em 12 de junho de 1917, João Bosco Penido Burnier ingressou ainda criança no seminário, aos 11 anos, dando início a uma trajetória profundamente marcada pela fé e pela disciplina intelectual.
Mais tarde, ao ser enviado para o Seminário Maior em Roma (Itália), teve contato com os jesuítas, o que o levou a entrar para a Companhia de Jesus. Foi na capital italiana que também foi ordenado sacerdote, em 1946.
Poucos anos depois, de volta ao Brasil e já integrado à Companhia de Jesus, exerceu funções de destaque até que, em meados da década de 1960, fez um pedido ao superior religioso que mudaria seu destino e o levaria a região com intensos conflitos sociais: “Esse pedido do Mato Grosso não é fuga, mas convicção muito profunda de que a Companhia tem de se tornar cada vez mais missionária”.
Pe. Burnier foi atendido em seu pedido e seguiu para a missão em Mato Grosso, onde atuou junto a povos indígenas como os Bakairi e os Bororo, além de trabalhadores rurais, combinando evangelização com ações concretas: alfabetização, saúde e assistência jurídica. Assim, em 1976, ano de sua morte, exercia a coordenação regional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), organismo ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e comprometido com a defesa dos povos originários.
E foi em Mato Grosso que Pe. Burnier encontrou um parceiro de caminhada: Dom Pedro Casaldáliga. Religioso espanhol naturalizado brasileiro, Casaldáliga foi uma das figuras centrais da defesa dos direitos humanos no Brasil. Em sua missão de denunciar o latifúndio, o trabalho escravo e a expulsão de povos indígenas durante a ditadura, sofreu perseguições e ameaças.
A presença dos dois religiosos em Mato Grosso, principalmente nas Prelazias de Diamantino e São Félix do Araguaia, não era apenas pastoral. Era política no sentido mais profundo da palavra, uma escolha radical pelos pobres, pelos sem-terra e pelos povos indígenas.
O crime em Ribeirão Cascalheira
Foi nesse contexto que ocorreu o episódio que marcaria definitivamente a história. Em 11 de outubro de 1976, Pe. Burnier e Dom Casaldáliga dirigiram-se à delegacia de Ribeirão Cascalheira (então Ribeirão Bonito) para interceder por lavradoras presas ilegalmente e submetidas à tortura. Durante a conversa com policiais, o jesuíta foi agredido e baleado na cabeça. Levado a Goiânia, morreu no dia seguinte, 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida.
Apesar do silêncio imposto pelo regime, o martírio de Pe. Burnier mobilizou a população: mais de duas mil pessoas participaram de seu enterro, transformando o luto em ato público de resistência.
Décadas depois, o Estado brasileiro reconheceria oficialmente o que já era evidente para a população local: não se tratava de um incidente, mas de um crime político. Em abril de 2010, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos classificou sua morte como resultado da repressão da ditadura. Além disso, o local onde o jesuíta foi atingido abriga, hoje, o Santuário dos Mártires da Caminhada, espaço de memória que liga fé, justiça e luta pela terra.
Burnier e Cañas
A história de Pe. João Bosco Burnier não é isolada. Ela ecoa na trajetória de outro jesuíta que, anos depois, também daria a vida pela mesma causa: o irmão Vicente Cañas, SJ, conhecido como Kiwxi.
Espanhol, Ir. Cañas chegou ao Brasil na década de 1960 e viveu mais de dez anos entre o povo Enawenê-Nawê, no noroeste de Mato Grosso. Diferente do perfil mais itinerante de Pe. Burnier, sua missão foi marcada por uma inculturação radical: aprendeu a língua Enawenê-Nawê, adotou os costumes e se integrou completamente à vida indígena.
Assim como Pe. Burnier, também enfrentou pressões de fazendeiros e conflitos fundiários. Em 1987, foi assassinado a mando de interesses ligados à disputa por terras indígenas.
As trajetórias dos dois jesuítas se cruzam não apenas no martírio, mas na coerência evangélica: ambos colocaram o corpo entre a violência e os vulneráveis, sustentando uma fé que se traduziu em ação concreta, sendo referências na defesa dos direitos humanos no Brasil.
Por Silvia Lenzi, jornalista e assessora da Comunicação da Provincia dos Jesuítas do Brasil.
* Livro João Burnier, Uma vida que move Vida!, da Coleção Jesuítas (Edições Loyola)



