
Pe. Adriano Luís Hahn, SJ
Todos nós, em algum grau, cometemos pecados, seja por omissão, seja por atuarmos demasiadamente somente em nosso benefício, seja por desprezo ou indiferença frente ao sofrimento das pessoas ou mesmo danificando o meio ambiente. Contudo, sem negar o aspecto individual, há práticas injustas que se convertem em regras e estruturas socialmente estabelecidas, isto é, superam a individualidade tornando-se um “fato social” estabelecido.
Os “fatos sociais”, segundo Durkheim, “consistem em maneiras de agir, de pensar e de sentir, exteriores ao indivíduo, e que são dotados de um poder de coerção em virtude do qual estes fatos se impõem a ele.” (DURKHEIM, 2007, p.3). Por exemplo, são fatos sociais as instituições da sociedade como as educativas, religiosas, jurídicas, financeiras…ou costumes coletivos. Não significa que sejam imutáveis, mas que funcionam com certa estabilidade e frequência, coagindo com certa força os indivíduos, depois de criados.
O teólogo Sung (2025) fala de “pecado social” presente em estruturas injustas da sociedade, em que a “idolatria” está expressa em “ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira” desconsiderando as necessidades concretas da população. Há os que criticam o conceito de “pecado social” afirmando que nele falta “um sujeito pessoal consciente e com a vontade deste pecado.” Porém, dita crítica parte de “uma noção individual e legalista do pecado”, ou seja, desconsidera a dimensão social do pecado em que coletivamente podem ser estabelecidas estruturas injustas.
O Papa Leão XIV, na Exortação Apostólica Dilexi Te, nº 93, faz a passagem do conceito de “pecado social” para o de “estrutura de pecado”:
Na Encíclica Dilexit nos, o Papa Francisco recordou que o pecado social assume a forma de uma “estrutura de pecado” na sociedade, fazendo frequentemente parte de uma «mentalidade dominante que considera normal ou racional o que não passa de egoísmo e indiferença. Este fenómeno pode definir-se como alienação social». [95] Torna-se normal ignorar os pobres e viver como se eles não existissem. Apresenta-se como uma escolha razoável organizar a economia exigindo sacrifícios ao povo, para atingir certos objetivos que interessam aos poderosos.
A crítica está direcionada a uma forma de organização econômica e política que exige “sacrifícios ao povo” em função de interesses de alguns grupos poderosos atingirem seus objetivos particulares. Algumas perguntas: Como fica o “bem comum”? Qual economia e para beneficiar quem? Se for de acordo com uma visão cristã de solidariedade, de amor ao próximo, a escolha será uma economia atenta às necessidades dos mais pobres e na busca da harmonia, da sustentabilidade e do cuidado do meio ambiente. Porém, o que há de sustentável na chamada “sustentabilidade” da economia hegemônica?
DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico (1895). São Paulo: Martins Fontes, 2007.
LEÃO XIV, Papa. Exortação Apostólica Dilexi Te: sobre o amor para com os pobres. Vaticano: Santa Sé, 4 out. 2025.
SUNG, Jung Mo. Dilexi Te: o pecado social, a estrutura de pecado e a idolatria. Instituto Humanitas Unisinos – IHU, 4 dez. 2025. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/660788-dilexi-te-o-pecado-social-a-estrutura-de-pecado-e-a-idolatria-artigo-de-jung-mo-sung. Acesso em: 14 jan. 2026.



