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Terremoto na Colômbia: Dor e solidariedade | Quando a terra se move, o coração também se move

  • Postado em: 10 de setembro de 2026
Por Pe. Hermann Rodríguez Osorio, SJ, provincial dos jesuítas da Colômbia

“Ou vocês pensam que aqueles dezoito que morreram quando a torre de Siloé caiu sobre eles eram mais culpados do que todos os outros que viviam em Jerusalém? Eu lhes digo que não; mas, se vocês não se arrependerem, também morrerão.” (Lucas 13:4-5)

O mundo tremeu. Literalmente. O dia 10 de agosto de 2026 será lembrado por toda a Colômbia como um momento doloroso e trágico. A Colômbia sentiu mais uma vez sob seus pés que a terra não é tão firme quanto acreditamos. Um terremoto foi suficiente para nos lembrar de uma verdade que lutamos para aceitar: somos frágeis. E, no entanto, dessa fragilidade brotou algo profundamente humano e profundamente evangélico. Como Companhia de Jesus e como corpo apostólico, queremos fazer uma pausa, não apenas para contabilizar os danos, mas para ler o que Deus está nos dizendo por meio desta tragédia. 

Somos frágeis. E reconhecer isso é o princípio da sabedoria. Por anos, construímos seguranças. O terremoto, em 40 segundos, nos lembrou que tudo isso é relativo. Somos barro. Somos finitos. Somos interdependentes. Essa fragilidade não é uma falha a ser escondida; é a nossa verdade mais profunda. Somente quando a abraçamos é que deixamos de lado o orgulho e retornamos à humildade de quem sabe que precisa dos outros e precisa de Deus. Ser frágil não é ser fraco. É preciso ser genuíno. Lendo o livro Esperança do Papa Francisco, não pude deixar de pensar nessa experiência de fragilidade, quando, no final do capítulo 19, Francisco fala de húbris, uma atitude que os gregos entendiam como uma forma de autossuficiência que nos faz pensar que somos invulneráveis. O Papa diz: “Na tragédia grega, o antecedente que produz consequências terríveis é a húbris, a arrogância, essa inflação psíquica que torna o sujeito inconsciente de suas limitações”.

É uma dinâmica que acaba cegando o herói e levando à sua própria ruína. Para os gregos, não é algo que brota do mal, mas do esquecimento de que somos mortais e frágeis. Devemos rever o caminho que temos trilhado como sociedade, como país, como Igreja, como Companhia de Jesus, para crescermos na consciência de nossas limitações e nos acompanharmos mutuamente nesse caminho de humildade e pequenez.

A tragédia nos torna mais humanos. Em meio à poeira, a máscara também caiu. Não importava mais classe social, posição, comunidade ou sobrenome. Saímos todos para a rua, de pijama, com medo, buscando proteger as crianças, os idosos, os mais vulneráveis. A tragédia nos derrubou. E, ao nos derrubar, nos humanizou. O vizinho nos ofereceu café. O jovem carregou entulho por horas. A mulher da mercearia nos deu pão a crédito. Redescobrimos que, sob camadas de individualismo e desconfiança, os colombianos continuam sendo um povo compassivo, capaz do melhor quando o pior nos visita. A tragédia nos torna humanos. Nos torna irmãos e irmãs.

Aprendemos novamente a pedir ajuda e a oferecê-la. Nós, jesuítas, temos dificuldade em pedir. Somos treinados para dar, para resolver problemas, para apoiar. O terremoto nos obrigou a dizer: “Preciso de ajuda. Estou com medo. Não consigo fazer isso sozinho.” Pedir ajuda é um profundo ato espiritual. É reconhecer que não podemos nos salvar sozinhos. E oferecer ajuda, sem buscar os holofotes, sem fotos, sem esperar nada em troca, é o outro lado do mesmo Evangelho. Nestes dias, vimos filas não só para receber ajuda alimentar, mas também para doá-la. Vimos comunidades que abriram suas portas não só para oferecer abrigo, mas também para serem consoladas pela fé simples das pessoas. Aprendemos que dar e receber são o mesmo movimento do coração.

Inventamos formas de colaboração que não havíamos previsto. Quando as estruturas desmoronam, a criatividade do Espírito emerge. A paróquia tornou-se um abrigo. O salão da escola, um depósito. O grupo de WhatsApp do prédio, uma rede de apoio. A Eucaristia foi celebrada sob uma tenda, na lama, com um cálice emprestado. Não havia um plano pastoral perfeito. Havia disponibilidade. E essa disponibilidade criou colaborações sem precedentes: o arcebispo de Bogotá, juntamente com oitenta padres, alguns deles jesuítas, foram às regiões mais afetadas para oferecer “primeiros socorros espirituais”, acompanhando padres e comunidades em seu luto. Jesuítas, leigos, ex-alunos, freiras, universitários, alunos do ensino médio, pais — todos nos unimos para realizar tarefas simples e altruístas. Ninguém perguntava de onde você vinha, mas o que você podia fazer. Ali entendemos o que tanto pregamos: a missão não se trata de um projeto, uma região ou uma pessoa. Ela pertence ao Corpo. E o Corpo, quando ferido, se move como um só.

Sentimo-nos chamados a ver a situação como Corpo Apostólico. Esta talvez seja a maior graça. Que não vejamos o terremoto como eventos isolados, como regiões distintas, mas como um Corpo unido. Alguns rezando na capela da comunidade, outros removendo pedras na vizinhança, outros acolhendo famílias desabrigadas, outros conseguindo cobertores, outros ouvindo histórias de dor até o amanhecer. Se um membro sofre, todos sofremos. Se um membro se levanta, todos nos levantamos. Lemos isso em São Paulo e vimos isso em nossas ruas.

A Companhia não é a soma de obras. É um corpo que, quando tocado pela dor, se sente mais unido. Descobrimos que, embora a terra trema, há uma Rocha que não se move: o amor fiel de Deus, que se transforma em ternura na solidariedade. Temos uma tarefa enorme pela frente. Primeiro, restaurar a esperança e melhorar as condições de vida de muitos de nossos colaboradores nas áreas mais afetadas. E, mais tarde, reconstruir nossos projetos mais danificados. Com a solidariedade de nossos irmãos e irmãs na América Latina e em outros continentes, mas sobretudo com a solidariedade que surgiu entre nós, seremos capazes de fazê-lo.

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