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Artigo: Quando a vida se torna Quaresma

  • Postado em: 28 de março de 2026

Ir. Douglas Turri, SJ

Há momentos na vida em que aquilo que aprendemos como práticas da fé deixa de ser apenas recomendação religiosa e se torna experiência concreta. Aquilo que tantas vezes escutamos na liturgia ou na pregação ganha outra densidade quando atravessa a própria existência.

Recentemente, ao acompanhar de perto a fragilidade e a despedida de alguém muito querido, percebi que estávamos vivendo algo semelhante a uma Quaresma fora do calendário litúrgico. Um tempo de despojamento, de cuidado e de silêncio. Aos poucos, aquilo que parecia essencial foi sendo relativizado, e a vida nos conduziu, sem aviso, a um caminho de confiança e entrega.

Nesses momentos, as práticas tradicionais da Quaresma, como o jejum, a oração e a esmola, deixam de ser apenas recomendações e revelam seu sentido mais profundo. Jejuamos de certezas e de controles. Aprendemos a olhar o outro com mais atenção. E a oração se torna menos discurso e mais gesto silencioso de confiança.

Foi então que a palavra do profeta Joel ressoou com uma força nova: Voltai ao Senhor, vosso Deus, pois Ele é clemente e misericordioso (Jl 2,13).

A Quaresma não é apenas um tempo marcado no calendário da Igreja. Ela é um caminho espiritual que atravessa a própria vida e nos convida a redescobrir quem é o Deus a quem somos chamados a voltar.

Agar e o Deus que vê

Uma das narrativas mais reveladoras desse rosto divino encontra-se no livro do Gênesis, na história de Agar. Agar era uma mulher estrangeira, serva egípcia de Sara, entregue a Abraão para gerar descendência numa tentativa humana de resolver a aparente demora da promessa de Deus.

Quando engravida, a convivência se torna insustentável e Agar foge para o deserto. Ali acontece algo surpreendente. O texto bíblico afirma que o anjo do Senhor a encontrou junto a uma fonte no deserto.

A Escritura não diz que Agar encontrou Deus, mas que Deus encontrou Agar. Deus se revela fora do centro do poder e da religião institucional. Ele vai ao encontro de quem está nas margens, de quem carrega no corpo as marcas da injustiça.

A experiência é tão profunda que Agar dá um nome a Deus. Ela o chama de “Deus que me vê” (cf. Gn 16,13). Nesse gesto, a Escritura revela algo essencial. O Deus em que cremos é aquele que vê o invisível. Ele percebe o sofrimento escondido e reconhece a dor daqueles que parecem esquecidos.

Descobrir-se visto por Deus é muitas vezes o primeiro passo para perceber que a salvação já começou a acontecer.

O Deus que vê, ouve e se aproxima

A Bíblia apresenta repetidamente esse rosto divino. O Deus que vê o sofrimento humano também escuta o clamor dos aflitos. Foi assim quando Deus se revelou a Moisés diante da opressão do povo no Egito. Eu vi a aflição do meu povo, ouvi o seu clamor e desci para libertá-lo (cf. Ex 3,7-8).

Ver, ouvir e descer revelam o modo de agir de Deus na história. Ele não observa a vida humana à distância. Ele se aproxima, se comove e age em favor da vida.

Essa maneira de agir de Deus encontra em Jesus sua expressão mais plena. Nele, o Deus que vê e ouve torna-se presença concreta no meio da humanidade. Nos gestos, nas palavras e nas atitudes de Jesus, reconhecemos o mesmo Deus que se inclina diante do sofrimento humano.

Jesus vê os que estão à margem, aproxima-se dos que são evitados, escuta os que não têm voz e se comove diante da dor. Seu olhar alcança o cego à beira do caminho, a mulher curvada pelo sofrimento, o leproso excluído, a multidão cansada e abatida. Em sua vida inteira se manifesta o coração de Deus que não permanece distante, mas entra na história para restaurar a vida (cf. Mc 10,46-52; Lc 13,10-13; Mt 8,1-3; Mt 9,36).

Jejum, esmola e oração

É à luz desse Deus que a Igreja nos propõe as práticas quaresmais. O jejum nos ajuda a redescobrir o essencial e a reconhecer de que realmente nos alimentamos.

A esmola desloca o centro da nossa vida de nós mesmos para o outro e nos educa para a solidariedade. A oração, por sua vez, abre espaço para que aprendamos a olhar a realidade com os olhos de Deus.

Talvez seja isso que a Quaresma procura nos ensinar. A conversão não acontece apenas em momentos extraordinários da vida espiritual, mas no modo como atravessamos os acontecimentos concretos da existência.

Há momentos em que a própria vida nos conduz por um caminho de despojamento, silêncio e cuidado. Aquilo que parecia essencial perde lugar e descobrimos que somos convidados a confiar mais profundamente. Nesses tempos compreendemos que o verdadeiro jejum não é apenas aquele que escolhemos, mas também aquilo que a realidade nos pede para deixar.

Voltar ao Senhor

Mesmo quando caminhamos pelo deserto, Deus já está lá. O Deus revelado nas Escrituras é aquele que vê, que ouve, que se comove e que socorre.

Por isso a Quaresma permanece como um convite sempre atual. Voltar ao Senhor não significa apenas corrigir comportamentos ou intensificar práticas religiosas. Significa retomar uma relação de confiança e reconhecer que a vida inteira pode se tornar lugar de encontro com a misericórdia de Deus.

Voltamos porque sabemos que, antes mesmo de qualquer movimento nosso, Deus já nos viu, já nos ouviu e já nos amou.

“Voltai ao Senhor, vosso Deus, pois Ele é clemente e misericordioso.”
 (Jl 2,13)

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