
Entre os dias 05 e 09 de abril, uma missão composta por representantes da Companhia de Jesus, esteve na Terra Indígena Enawenê Nawê, no noroeste do Mato Grosso, para acompanhar o sepultamento da calota craniana do Ir. Vicente Cañas, SJ, e realizar um momento de memória junto ao povo com quem ele viveu. A iniciativa ocorreu no contexto da Páscoa e contou com a participação de membros da Preferência Apostólica Amazônia (Paam), Conselho Indigenista Missionário (Cimi), da Operação Amazônia Nativa (Opan) e da Diocese de Juína.
Assassinado em 1987 na defesa do território indígena, Vicente Cañas teve parte de seus restos mortais separada à época. A calota craniana tornou-se peça central do processo judicial, como prova da violência sofrida. Por décadas, os procedimentos jurídicos e a custódia de evidências mantiveram essa história em aberto. Agora, com o final do processo, o material foi finalmente liberado, permitindo o sepultamento no território onde ele escolheu viver sua missão.
O momento central ocorreu no local de seu martírio, onde foram celebrados ritos. Pe. Rogério Mosimann da Silva, SJ, delegado para a Paam, destacou: “Apesar de todos os esforços para apagar os rastros do Ir. Vicente e de negar a responsabilidade pelo assassinato, a verdade prevaleceu e o testemunho de Vicente Kiwxi […] continuará a projetar luz em nosso peregrinar pascal na Amazônia, alimentando nosso desejo de melhor servir os seus povos”.
A presença dos familiares vindos da Espanha trouxe à missão uma dimensão afetiva e profundamente humana. José Antonio Cañas Sánchez, sobrinho de Ir. Vicente, recorda que com o tempo, a compreensão sobre sua trajetória se aprofundou: “Ele não apenas viveu entre os indígenas — ele se tornou um deles.”
BOX: Nascido na Espanha, Vicente Cañas ingressou ainda jovem na Companhia de Jesus e chegou ao Brasil na década de 1970, onde participou do primeiro contato com o povo Enawenê Nawê ao lado de Tomás Lisboa. A partir daí, sua trajetória foi marcada por uma escolha radical de inculturação. Aprendeu a língua, assumiu o modo de vida indígena e passou a partilhar integralmente o cotidiano do povo. O nome Kiwxi, dado pelo povo Myky, significa “aquele que se doa por inteiro”. Entre os Enawenê Nawê, sua presença permanece viva não apenas como memória histórica, mas como parte do mundo espiritual e da experiência comunitária.
Para conhecer mais detalhes sobre a missão, os testemunhos e o significado desse gesto de memória e justiça, confira a reportagem completa no site da Paam: https://bit.ly/3OIvptb



