Por Pe. Antônio Anderson Rabêlo Costa, SJ, pároco e reitor do Santuário do Caaró, em Caibaté (RS).
A Região Missioneira abriga as memórias de uma das experiências mais fascinantes e complexas da nossa civilização: as Missões Jesuítico-Guarani. Iniciadas há quatro séculos, essas ricas reduções constituíram-se como um verdadeiro ensaio de utopia, ambiente no qual a espiritualidade da Companhia de Jesus e a cultura ancestral dos povos guarani se encontraram de maneira harmoniosa. Ao celebrarmos os 400 anos dessa epopeia evangelizadora, somos cordialmente convidados a percorrer as tramas de uma história que transcende as antigas ruínas de pedra. Esse legado inestimável continua vivo, pulsante e intensamente atuante no coração do povo, refletindo valores eternos que atravessaram gerações.
Tudo começou no alvorecer do século XVII, quando os primeiros missionários adentraram essas inexploradas paragens. Movidos pelo zelo apostólico e pelo desejo autêntico de construir uma nova sociedade alicerçada no Evangelho, fundaram 18 missões durante a fase inicial (1626-1638). Tais povoados tornaram-se modelos ímpares de organização social, cultural e econômica. O canto coral ecoou nas praças, a arte floresceu nas oficinas e a fé cristã foi inculturada de forma singular. Contudo, essa experiência inovadora encontrou forte resistência de líderes indígenas defensores de seus costumes, culminando lamentavelmente no martírio dos evangelizadores pioneiros naquelas terras.
Atualmente, essa herança de quatro séculos dialoga de modo contínuo e fecundo com os desafios do presente. A Companhia de Jesus, mantendo-se fiel às suas raízes históricas, retomou no ano de 2020 sua presença na Diocese de Santo Ângelo, renovando a missão assumida outrora pelos Santos Mártires das Missões. O trabalho dos jesuítas contemporâneos vai muito além da simples preservação memorial. Ele configura-se como um apostolado paroquial desafiador e profundamente inserido na realidade local, atualizando de forma concreta o seu compromisso evangélico por intermédio das Paróquias São Miguel Arcanjo, Todos os Santos do Caaró e Santa Lúcia.
Nesses sagrados espaços, os jesuítas caminham lado a lado com as mais de 50 comunidades atendidas. O Santuário do Caaró, sob o cuidado pastoral da Ordem desde 2023, consolida-se não apenas como inestimável monumento histórico. Transformou-se em um vibrante polo de espiritualidade e constantes romarias, atraindo visitantes, romeiros e peregrinos em busca de paz espiritual e cura. Neste local abençoado, a água da Fonte Jesuíta jorra incessantemente, atuando como um poderoso símbolo da vida eterna que brota da entrega abnegada dos mártires e do frescor de uma fé autêntica, que resiste à passagem implacável do tempo.
A inserção contemporânea desses religiosos na região atesta a capacidade da Companhia de Jesus de ler os sinais dos tempos. O carisma de quase cinco séculos se adapta às complexas exigências do indivíduo moderno, garantindo relevância contínua sem jamais perder a sublime essência da sua missão original. Olhando para o vasto horizonte, o futuro da atuação jesuíta desenha-se com cores luminosas de invencível esperança e perene renovação espiritual. O marco celebrativo dos 400 anos não deve ser interpretado como uma linha de chegada definitiva, mas sim como um ponto de partida para novas travessias em prol do bem comum e da justiça social.
O mesmo zelo apostólico que outrora impulsionou os pioneiros a cruzar o rio Uruguai sustenta hoje os seus sucessores ao navegarem, com destemor e confiança, pelas águas frequentemente turvas e desafiadoras da era pós-moderna. A epopeia missioneira perpetua-se, assim, como uma belíssima melodia inacabada. Seus acordes decisivos continuam sendo compostos diariamente por mulheres e homens sinceros que acolhem essa mensagem. Na terra vermelha sob o vasto céu dos pampas, o glorioso passado abraça o presente fecundo, assegurando que a chama da fé cristã, outrora acesa, jamais se apagará na alma do povo missioneiro.
* Artigo publicado na edição de nº 126 da Revista Em Evidência.



