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Jesuíta fala sobre o 15º encontro de Solidariedade e Apostolado Indígena

Entre os dias 16 e 21 de agosto, o padre Urbano Rodolfo Mueller participou do 15º encontro da Rede de Solidariedade e Apostolado Indígena da Companhia de Jesus na América Latina. No evento, realizado na Guatemala, o jesuíta representou a Província dos Jesuítas do Brasil – BRA. Abaixo, ele compartilha um pouco dessa experiência:

 

XV ENCONTRO DA REDE DE SOLIDARIEDADE E APOSTOLADO INDÍGENA DA COMPANHIA DE JESUS NA AMÉRICA LATINA

 Em 2018, realizou-se o XV Rede de Solidariedade e Apostolado Indígena da Companhia de Jesus na América Latina, entre os dias 16 e 21 de agosto, na cidade de Santa María de Chiquimula, Totonicapán, na Guatemala. Esses encontros são bianuais e reúnem jesuítas e indígenas de diversos países onde o apostolado jesuíta com povos indígenas está ativo.

Tive a graça de participar deste encontro, representando também a Província dos Jesuítas do Brasil-BRA. Infelizmente, desta vez, não foi possível levar indígenas daqui da nossa Serra da Lua – Roraima, para este encontro, por dificuldades com documentação e outros percalços. O encontro teve lugar no Centro de Educación Integral Popol Ja, na área da paróquia jesuíta de N. Señora de la Natividad. Marcaram presença representantes indígenas e jesuítas de 13 países: Chile, Bolívia, Peru, Equador, Brasil, Venezuela, Panamá, Nicarágua, El Salvador, Honduras, México, Guiana e a anfitriã Guatemala, que nos acolheu a todos e todas com muito carinho e organização, com música de marimba e, no início do encontro, com um ritual maia.

O tema central deste encontro foi Por la Madre tierra – por la Comunidad. Diálogo inter-religioso y Buen Vivir frente al “desarrollo. Com o objetivo de partilhar preocupações, desafios e sinais de esperança na caminhada e missão com nossos irmãos e irmãs indígenas, procuramos vislumbrar caminhos que nos ajudem a responder ao “clamor da terra” e ao clamor dos povos indígenas pelo seu Bem Viver. Inspirando-nos na cosmovisão indígena, refletimos, especificamente, sobre a vida e os desafios dos indígenas jovens, mulheres e migrantes. Basicamente, três momentos guiaram nosso encontro, usando a metodologia do VER (contexto e experiência desde nossas missões), JULGAR (refletir sobre nossas práticas) e AGIR (identificar caminhos de ação na missão). Esses momentos ocorreram na base de perguntas para trabalho em grupo (por missão, ao azar e por regiões), sendo sempre socializados em plenária.

Houve também três exposições/reflexões para ajudar no aprofundamento e conteúdo de nossas partilhas. No dia 18 de agosto, o padre Franz Bejarano, da Bolívia, coordenador geral do encontro, refletiu conosco a partir da pergunta: como o Bem Viver pode iluminar as realidades dos povos indígenas e da sociedade em geral e como os povos indígenas podem inspirar o Bem Viver? No dia 19, o Pe. Vico Castillo, antropólogo guatemalteco, enriqueceu-nos com uma exposição motivadora: a realidade inter-religiosa na qual vivemos e o Bem Viver, a partir da reflexão da Laudato Sí e da cosmovisão maia; e o Pe. Carlos Bresciani, do Chile, nos ajudou a pensar sobre a nossa própria missão: Quem somos, onde estamos, que fazemos e o que nos sentimos chamados a realizar? Todas as reflexões nos levaram a revisar caminhos percorridos e a identificar linhas e modos de proceder que permitam responder à nossa missão para com a mãe Terra – comunidade e com os povos indígenas.

Na sua exposição, Vico Castillo traçou um paralelo entre a cosmovisão maia e o conteúdo da encíclica Laudato Sí. As coincidências são impressionantes! A sabedoria maia ensina que “tudo é sagrado, tudo tem mãe e pai e todas as coisas nos cuidam e protegem”; e o papa Francisco nos lembra, na sua encíclica: “todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, nosso Pai comum, e tudo está interligado”.

Finalmente, devo dizer que são incomensuráveis as motivações, as aprendizagens e os frutos de encontros como esse que ocorreu na Guatemala. Aliás, na lógica da cosmovisão indígena, não é importante quantificar resultados e números, mas, sim, saber conviver, compartilhar a vida e as forças de cada pessoa, motivar-se e fortalecer-se mutuamente na luta e na caminhada comum. E isso aconteceu nesses dias de encontro, animando-nos a seguir juntos, indígenas e jesuítas, defendendo a vida, a dignidade e os valores do Bem Viver.  No entanto, no dia a dia da nossa missão, são muitos os desafios e as interrogações que nos acompanham: como fazer comunhão mais plena entre a espiritualidade/cosmovisão indígena e o Evangelho de Jesus Cristo? Somos capazes de nos deixar evangelizar pelos valores, pela cultura e pela espiritualidade indígena? Sabemos realmente escutar o(a) indígena e aprender de verdade do seu modo de vida? E por que tão poucos jesuítas brasileiros querem vir trabalhar na Preferência Apostólica da Amazônia e, particularmente, assumir a causa indígena?

 Agradeço muito a Deus pela oportunidade de participar do XV Encontro bianual da Rede de Solidariedade e Apostolado Indígena da Companhia de Jesus na América Latina; e agradeço ao administrador da Província por haver-me providenciado, prontamente, a passagem para a Guatemala. Com a força do Deus da Vida, seguimos aqui na inserção e na missão junto com os povos indígenas Wapichana e Macuxi da Serra da Lua – Roraima. O padre Setsuro Horie e eu procuramos seguir em nossa vida de pobreza e humildade, na alegria de servir e na fidelidade à causa do Bem Viver e da dignidade dos povos indígenas. Aqui em nossa “casa de apoio”, na Comunidade Indígena de Novo Paraíso, temos sempre um cafezinho paradisíaco para as visitas…

Pe. Urbano Rodolfo Mueller, SJ

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