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Tempo da Quaresma

As nossas comunidades preparam-se para embarcar no caminho da Quaresma, um caminho espiritual que nos convida a redescobrir a beleza do nosso batismo, a renovar a opção de seguir Cristo no caminho da cruz e de participar na vitória pascal.

Para viver seriamente a ascese quaresmal, somos convidados a assumir três compromissos: a caridade, que encurta a distância entre irmãos e nos torna atentos às necessidades dos pobres; a oração, que no fragor esculpe espaços de silêncio e irriga a existência do ser humano; o jejum, que ordena os sentidos e ajuda a dar o valor certo às coisas.

O amor compromisso com o próximo, o íntimo diálogo com Deus e o autêntico jejum quaresmal visam a transfiguração dos desejos e a purificação do coração, para abandonar o fermento velho, impregnado de malícia e perversidade, e celebrar a Páscoa do Senhor com pão ázimo de sinceridade e verdade.

Um pouco da história

Comecemos o tempo santo da Quaresma com seus ritos litúrgicos e sentidos. Um tempo favorável, que a Igreja nos faz celebrar desde o século IV, para alcançar cada vez mais plenamente a beleza da vida nova em Cristo: “todos os anos concedeis a vossos fiéis a graça de se preparem para celebrar os sacramentos pascais, na alegria de um coração purificado, para que, dedicando-se mais intensamente à oração e às obras de caridade e celebrando os mistérios pelos quais renasceram, alcancem a plenitude da filiação divina…” (MR, Prefácio da Quaresma I).

Nos três primeiros séculos, não temos registro da Quaresma entre os cristãos. A Páscoa anual era preparada por meio de dois ou três dias de jejum. A primeira evidência desta época do ano litúrgico remonta ao século IV: Egéria é testemunha disso, no que diz respeito a Jerusalém e Espanha, Santo Agostinho para a África e Santo Ambrósio para Milão. No tocante a Roma, será o historiador Sócrates na História Eclesiástica (século IV) que testemunhará um tempo de três semanas de jejum em preparação para a Páscoa, exceto aos sábados e domingos.

O papa Leão Magno, em seu décimo sermão quaresmal proferido em 455, lembrou aos fiéis: “Ao aproximar-se a celebração deste mistério que transcende todos os outros, o mistério do Sangue de Jesus Cristo que apagou as nossas iniquidades, preparemo-nos em primeiro lugar mediante o sacrifício espiritual da misericórdia”.

Redescoberta do Batismo

Os textos litúrgicos falam-nos deste tempo como sacramento da Quaresma (MR, Oração da Coleta do I Domingo da Quaresma), de um retorno ao Senhor marcado por um intenso propósito espiritual, em que os batizados são chamados a experimentar Cristo e a testemunhá-lo com a vida.

O Concílio aponta o caminho para a recuperação do duplo caráter da Quaresma, “por meio da recordação ou preparação do Batismo e pela Penitência” (SC 109), para uma autêntica disposição para celebrar o mistério pascal.

É no batismo que se funda a preciosidade do caminho quaresmal. Viver este caminho nas nossas comunidades significa saborear de novo a beleza de ser filhos, de ser Igreja. Desse modo, a Quaresma assume a forma de um verdadeiro e próprio caminho espiritual que a Igreja oferece aos seus filhos para chegarem completamente renovados para celebrar a Páscoa do Filho de Deus (cf. MR, Oração de Bênção das Cinzas). Um caminho sustentado pela força da Eucaristia para que se torne um instrumento eficaz para a cura do nosso espírito (cf. MR, Oração depois da Comunhão, Quarta-feira das Cinzas) e que não pode deixar de rever e restabelecer a relação de oração e diálogo entre o Pai e os seus filhos.

Os padres da Igreja, descrevendo a preparação para o batismo dos catecúmenos nas diferentes etapas, apresentam-nos o simbolismo da Quaresma como o tempo que passa entre dois cursos de água: o Mar Vermelho e o Jordão. Os padres gostavam de se referir ora a um e ora ao outro, para descrever a grande passagem batismal, dirigindo decisivamente o caminho quaresmal rumo ao Jordão: para os catecúmenos que já haviam atravessado o Mar Vermelho, isto é, haviam se convertido, mas ainda não haviam recebido o Batismo, o rio a atravessar era o rio batismal do Jordão, para entrar na terra prometida do reino de Cristo, vivido na fé da comunidade cristã (cf. ORÍGENES, Homilias sobre Josué, 4,1).

Caminho de Conversão

O convite constante à conversão por meio de obras de penitência e, sobretudo, de caridade, que a liturgia nos oferece neste tempo litúrgico, não pode restringir-se apenas ao aspecto moral, embora seja sempre importante. “Progredir no conhecimento do mistério de Cristo e corresponder-lhe por uma vida santa” (MR, Oração da Coleta do I Domingo da Quaresma) significa reconhecer o imenso dom recebido no Mistério Pascal através dos sacramentos da iniciação cristã: ser verdadeiramente filhos do Pai, gerados pela morte de Cristo. Só esta consciência “batismal” nos impulsionará para a vida nova daqueles que sabem que estão “ressuscitados com Cristo”.

Este ano, o fio condutor dos Evangelhos dominicais é puramente de natureza “penitencial”, assim como a eucologia é um convite à “conversão-misericórdia”. Toda a liturgia dos domingos da Quaresma convida-nos a tomar consciência do “círculo virtuoso” que liga a experiência da misericórdia divina à nossa conversão, que, por sua vez, se traduz na nossa ação concreta de misericórdia para com os irmãos e irmãs. Em outras palavras, tendo experimentado o amor misericordioso de Deus, tornamo-nos capazes de amar os outros.

O caminho penitencial da Quaresma nos conduzirá, à noite de Páscoa, na celebração da Vigília, a renovar as promessas batismais, para sermos aspergidos com aquela água que nos fez renascer para uma nova vida, fazendo ressoar o convite de Santo Irineu de Lião: “Cristão, torna-te o que sois!”.

É também um tempo exigente

A liturgia convida-nos a viver este tempo com sobriedade e essencialidade, a sentir, como Israel no Egito, “o peso da escravidão” neste tempo em que se desencadeiam conflitos que pretendem condenar o Deus da paz à irrelevância; exorta-nos a elevar o olhar para o Amor, o único que pode dar uma resposta futura ao desejo de libertação que vive no coração de cada ser humano.

Será um tempo “exigente”, porque será preciso a força da esperança e da verdade para podermos refletir sobre a própria vida e decidir sobre a mudança através da celebração do sacramento da Penitência, que nos permitirá elevar o olhar para o esplendor da Páscoa sem ficarmos cegos pela miséria do nosso pecado.

O jejum e a esmola encherão de concretude o caminho quaresmal e recordar-nos-ão que somos um povo em peregrinação rumo à libertação e não uma multidão anônima que corre sem rumo, e principalmente, que somos um povo constituído de irmãos e irmãs.

Somos convidados a viver o jejum como uma renúncia ao que não é essencial, aquele jejum que solicitará os nossos corações a compreender de quem realmente não podemos prescindir, quem é o sopro de esperança de nossos corações, a voz de quem deve atravessar os ruídos insuportáveis dos conflitos, da violência e da opressão para recontar-se nas novas belezas de paz. “O jejum não é somente privar-se do pão. É também dividir o pão com o faminto” (Papa Francisco).

Somos chamados a viver a esmola não apenas como partilha das necessidades dos irmãos, mas como abertura do coração e da vida à necessidade de paz e esperança do mundo, para que o amor do Pai que ressuscitou o Senhor Jesus seja derramado pelos caminhos da história graças ao amor que cada um de nós poderá oferecer e partilhar com cada pessoa, para que no fim a paz seja fruto da alegria da Quaresma deste ano.

Washington Paranhos, SJ, é professor e pesquisador no departamento de Teologia da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje).

Fonte: Vatican News

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